Hospital Fernando Franco articula acolhimento e uma nova perspectiva de vida para mulher trans
Por meio do Serviço Social e com o apoio da Psicologia, unidade mobilizou a rede de proteção para garantir segurança, dignidade e continuidade do cuidado a paciente em situação de extrema vulnerabilidade social.

Cuidar de alguém vai muito além de tratar uma doença. É também olhar para a história de vida de cada paciente, compreender suas necessidades e buscar caminhos para que, após a alta hospitalar, ela possa seguir com segurança, dignidade e novas possibilidades. Foi com esse compromisso que a unidade Fabamed em Aracaju/SE, o Hospital Municipal Desembargador Fernando Franco, por meio do Serviço Social e com o apoio da Psicologia, articulou o acolhimento institucional de uma mulher trans em situação de extrema vulnerabilidade social, identificada nesta reportagem apenas pela inicial V., para preservar sua identidade.
Após um período de internação, V. deixou o hospital com uma importante conquista: o acesso a uma vaga em um equipamento da rede socioassistencial do município de Aracaju, onde já se encontra acolhida. A medida representa mais do que uma alternativa de moradia. É a possibilidade de recomeçar em um ambiente de proteção, depois de uma trajetória marcada por situações de violência, fragilidade dos vínculos sociofamiliares e ausência de suporte habitacional.
Durante a internação, a equipe identificou que o retorno de V. ao contexto em que vivia não oferecia as condições necessárias para uma saída segura. Diante dessa realidade, o cuidado precisou ultrapassar os limites da assistência clínica e alcançar também as dimensões sociais e emocionais que influenciam a recuperação e a vida após a hospitalização.
O Serviço Social, com o suporte da Psicologia, mobilizou uma rede de apoio que envolveu serviços municipais e estaduais, organizações da sociedade civil e instituições que desenvolvem ações voltadas à população LGBTQIA+. A articulação intersetorial foi fundamental para encontrar uma alternativa compatível com as necessidades da paciente, respeitando sua identidade de gênero e assegurando seus direitos.
Para a coordenadora do Serviço Social, Sandra Magna Rezende Carvalho, a experiência reafirma a importância de planejar a alta hospitalar considerando a pessoa em sua integralidade. “Nosso compromisso é assegurar que a alta hospitalar seja planejada de forma responsável e segura, considerando o paciente em sua integralidade e reconhecendo que as vulnerabilidades sociais também impactam diretamente a continuidade do cuidado. Mais do que garantir uma vaga, buscamos construir uma alternativa de proteção que respeite a dignidade, a identidade de gênero e os direitos da paciente”, destaca.
Sandra ressalta que a conquista da vaga representa uma grande satisfação profissional e reforça o compromisso ético do Serviço Social com a defesa dos direitos humanos, a dignidade e a proteção social.
Um acolhimento que também ajuda a curar
Para V., o período vivido no Hospital Fernando Franco foi marcado não apenas pelo tratamento de sua condição de saúde, mas também pelo acolhimento recebido de profissionais de diferentes áreas. Em seu depoimento, a paciente relata que chegou à unidade muito debilitada e encontrou apoio, respeito e atenção. Ela reconhece o cuidado das equipes de Nutrição, Serviço Social, Psicologia, médicos, enfermagem e também dos profissionais da limpeza. Mesmo em um período relativamente curto, conta que construiu vínculos afetivos com aqueles que estiveram ao seu lado.
“Eu fui acolhida e amparada. Em nenhum momento fui desamparada ou desprezada. Minha alegria também é saber que a humanização foi muito grande por parte da Nutrição, do Serviço Social, dos médicos, da enfermagem, da Psicologia e até da limpeza. Em pouco tempo, a gente cria um vínculo familiar, de respeito e de amor. Saber que tudo isso também ajuda a curar nossas feridas nos traz muita alegria”, relata.
V. também compartilha a surpresa positiva diante da forma como foi recebida. Acostumada a enfrentar preconceitos e situações de marginalização, ela conta que inicialmente temia não encontrar acolhimento por ser uma mulher trans.“Eu esperava uma coisa insatisfatória, porque, pela nossa perspectiva de vida, a gente espera não ser acolhida, por conta de tudo o que já sofre. Mas me surpreendi. Percebi que existe um preparo muito grande para receber nosso grupo aqui. Estou muito feliz por isso”, afirma.

O cuidado que continua depois da alta
A experiência de V. evidencia uma dimensão essencial do trabalho desenvolvido pelo Hospital Municipal Desembargador Fernando Franco: a compreensão de que o paciente não se resume à doença que o levou à unidade. A recuperação também depende das condições que encontrará ao deixar o hospital, das redes de apoio disponíveis e da possibilidade de viver em um ambiente seguro. Por isso, o planejamento da alta, a escuta qualificada e a articulação com a rede de proteção social são parte do cuidado integral.
Ao contribuir para que V. encontre acolhimento e segurança após a internação, o Hospital Fernando Franco reafirma seu compromisso com uma assistência humanizada, que reconhece as singularidades de cada pessoa e considera não apenas o tratamento durante a hospitalização, mas também o que virá depois.
Para a paciente, essa saída representa a oportunidade de reconstruir caminhos. Para a equipe, é a confirmação de que cuidar também significa estar atento à vida que espera o paciente do lado de fora do hospital e fazer o possível para que ela seja vivida com mais dignidade, proteção e esperança.




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